A ficção do juiz que só existe na sua cabeça.
Sabe aquela sensação constante de que você está sempre devendo algo a alguém? De que precisa se explicar, se justificar ou garantir que atendeu a todas as expectativas para, só então, ter o direito de relaxar?
Ao falar do inconsciente, Lacan sintetiza muito bem como a nossa mente funciona: ao falarmos de inconsciente, não há como distinguir a verdade da ficção, pois a verdade do sujeito é tecida de ficção.
Na prática do dia a dia, isso significa que muitas das certezas mais pesadas que carregamos, como a ideia de que precisamos ser impecáveis para não sermos criticados, na verdade, são roteiros muito bem elaborados que nós mesmos fomos criando ao longo da vida.
A sensação de estar sempre “em dívida”
Muitas pessoas vivem em uma espécie de tribunal permanente. Cada escolha simples, cada resposta que demora a ser enviada, cada decisão de dizer um “não” ou até a tentativa de tirar um momento de descanso vem acompanhada de uma pontada de culpa.
Existe uma busca contínua por uma conduta impecável, como se fosse necessário provar o tempo todo que se é uma “boa pessoa”, um “profissional perfeito” ou alguém acima de qualquer suspeita.
O problema é que, quanto mais a gente tenta quitar essa dívida de perfeição com o mundo, mais exaustos ficamos. Porque parece que a conta nunca fecha.
O tribunal da mente e a necessidade de aprovação
Mas se pararmos para analisar com calma… quem é, afinal, esse juiz para quem você presta contas todos os dias?
Se olharmos mais de perto, percebemos algo curioso: na maioria das vezes, a exigência mais dura não está vindo da sua família, do seu chefe ou dos seus amigos. Ela vem de uma ficção interna.
Nossa mente é mestra em construir narrativas sobre o que os outros esperam de nós. Inventamos verdades absolutas como:
“Se eu não fizer tudo certo, vão descobrir que sou uma fraude.”
“Se eu me posicionar ou me impor, vou deixar todo mundo chateado.”
Assumimos essas histórias como fatos e passamos a vida tentando satisfazer uma cobrança que, na realidade, foi tecida pelas nossas próprias fantasias e medos. Em outras palavras: vivemos tentando pagar uma dívida que ninguém de fora nos cobrou.
Desarmando o roteiro
Reconhecer que o nosso inconsciente constrói essas histórias é o primeiro passo para suavizar o peso da rotina.
Da próxima vez que você se pegar justificando demais uma escolha simples, ou sentindo uma culpa enorme por não entregar um padrão irrealizável, vale a pena fazer uma pausa e se perguntar:
Quem foi que disse, exatamente, que eu preciso dar conta disso tudo?
Essa cobrança é um fato real do momento presente ou é um roteiro antigo que eu continuo repetindo?
O que aconteceria de tão grave se eu me autorizasse a ser apenas humano e imperfeito?
Baixando a guarda
A verdadeira tranquilidade não vem de finalmente conseguir agradar a todos ou de zerar uma lista infinita de exigências mentais. Ela vem do momento em que percebemos que o tribunal está, na verdade, vazio.
Quando entendemos que a nossa mente gosta de tecer ficções, ganhamos a liberdade de reescrever a história. Que tal começar a não responder esse juiz invisível e dar espaço para viver de forma mais leve, real e possível?
Karyna Boano · Psicóloga clínica e psicanalista · CRP 06/190810