A vida no modo condicional: por que a gente adia o que mais quer?

2–3 minutos

Sabe aquela sensação de viver com o pé no freio e, ao mesmo tempo, com o acelerador no talo? É uma engrenagem na cabeça que não para nunca, gasta uma energia absurda, mas no fim das contas parece que a gente fica rodando em círculo.

Entre as várias táticas que a gente usa para lidar com as incertezas da vida, tem uma que é sutil, mas acaba doendo: o hábito de colocar a existência no modo condicional.

Na clínica, é super comum ouvir frases do tipo: “Quando eu conseguir organizar tudo, eu começo”, “Assim que a segurança estiver garantida, eu me permito”, ou “Quando esse caos passar, eu vivo de verdade”.

A gente pega aquilo que nos move, aquilo que a gente mais deseja, e joga para uma distância segura. Mas por que a gente insiste tanto em postergar o que diz querer tanto?

O cálculo contra o medo

Na psicanálise, o desejo é meio irredutível e traz aquela marca chata de que a gente não controla tudo. Ele bate de frente com a nossa vulnerabilidade. É aí que a gente inventa uma muralha de defesas para tentar se proteger.

Esse funcionamento é baseado no cálculo, na antecipação e na dúvida infinita. A lógica é mais ou menos assim: se eu adiar a ação para sempre, eu zero o risco de errar, de me frustrar ou de dar de cara com o imprevisto.

O resultado? A gente transforma o tempo numa espécie de depósito de preparativos. A gente se prepara tanto para viver que simplesmente esquece de viver. A vida real, com toda a sua bagunça e surpresas, vira um eterno ensaio geral.

Lacan tem uma frase que mexe muito com isso: “Penso onde não sou, sou onde não penso”. O nó da questão é que a gente tenta habitar o tempo todo o lugar do pensamento racional, achando que se a gente calcular cada milímetro, vai conseguir dominar o destino. Só que é justamente nos tropeços, nos lapsos e naquilo que foge do script que a nossa verdade aparece. O adiamento é só uma tentativa de evitar essa divisão e manter a ilusão de que a gente controla a própria história.

O preço de viver no futuro

O problema é que essa ruminação mental esgota a gente, gerando uma culpa danada e aquela sensação de que nunca está bom o suficiente.

O presente vira um purgatório de obrigações em prol de um futuro idealizado que, quando chega, ou perde a graça ou já é substituído por uma nova exigência de controle.

Sair desse lugar e dar espaço para o ato — seja lá o que isso signifique na sua vida — exige uma travessia: aceitar que a gente não tem garantia de nada. Dar espaço para o desejo significa bancar o risco do presente.

O trabalho analítico não quer acabar com o seu pensamento, mas te ajudar a abrir uma brecha para que você possa, finalmente, parar de calcular tanto e habitar mais o lugar onde a vida acontece.

Karyna Boano · Psicóloga clínica e psicanalista · CRP 06/190810