A vida, muitas vezes, é uma bagunça que a gente não entende. A gente se sente perdido, sem saber para onde ir. É como se a história da nossa vida estivesse escrita em um monte de cartas, e alguém tivesse derrubado e misturado todas elas no chão. Nossos sonhos, nossos medos, as brigas do passado, e até aquele desejo que a gente nem sabe nomear… tudo isso vira um bololô só.
Foi pensando nisso que o psicanalista Christian Dunker deu a letra:
“Talvez a função do psicoterapeuta ou do psicanalista seja parecida com a de um carteiro que pega cartas embaralhadas, as cartas de nosso destino, e ajuda a entregar as que podem ser entregues, reenviar as que estão sem destinatário e cuidar daquelas que ainda não foram escritas.”

Essa ideia do psicanalista como “carteiro da alma” é genial, porque ela conecta na veia com o que Freud e Lacan já falavam sobre a nossa cabeça.
O Inconsciente é um E-mail Não Entregue (Freud e Lacan)
Para Sigmund Freud, grande parte do que a gente vive não é escolha consciente; é puxado por forças que estão lá no nosso porão mental: o Inconsciente. Nossos traumas e as coisas que a gente “engole” sem querer (o recalque) são como cartas importantes que não conseguiram chegar ao nosso “Eu” (a Consciência). Elas ficam rodando e voltam em forma de sintoma – aquela ansiedade que não passa, aquele medo bobo, ou aquela repetição de erro.
Jacques Lacan dá um passo além, dizendo que esse Inconsciente é estruturado como uma linguagem. Ele é feito de “significantes”, as palavras e símbolos que nos formaram. Pense assim: sua vida é um texto. Se as palavras (as cartas) estão fora de ordem, o texto não faz sentido. O sintoma é a palavra repetida no lugar errado.
O carteiro (o analista) entra em cena porque ele não é o autor, nem o destinatário final. Ele é o cara que vai fazer a correspondência circular de novo.
A Missão do Carteiro
O analista não vai te dar conselhos, nem dizer o que fazer. Ele simplesmente escuta e, com suas intervenções pontuais, te ajuda a lidar com esses três tipos de “cartas”:
1. Entregar as Cartas que Podem Ser Entregues (Dando Nome ao Sofrimento):
São aquelas mensagens que estavam presas, virando sintoma. A gente fala e, na nossa própria fala (a famosa livre associação freudiana), a gente tropeça. O analista percebe esse tropeço, aponta o padrão, e puff: a carta que estava perdida, de repente, é entregue para você.
Você finalmente entende que seu medo de falar em público tem a ver com um trauma antigo na escola, ou que sua dificuldade em se relacionar repete um padrão da sua casa. O sofrimento, que antes era uma dor sem nome, ganha um endereço e um sentido.
2. Reenviar as Cartas Sem Destinatário (Encarando a Falta):
Muitas das nossas “cartas” são enviadas para lugares impossíveis: para um amor idealizado, para um passado que não volta ou para a expectativa que a sociedade tem de nós. A gente quer ser “completo”, preencher um vazio.
Lacan explica que o ser humano é movido pela falta. O analista, ao não preencher esse vazio na relação terapêutica (ele não é seu pai, nem seu salvador), te ajuda a encarar o fato de que não há um destinatário final perfeito para sua vida. A carta sem destino é, na verdade, o seu desejo puro, que só existe porque há uma falta. O trabalho é “reenviar” essa busca para você, para que você pare de procurar fora e comece a agir a partir do seu próprio motor.
3. Cuidar das Cartas que Ainda Não Foram Escritas (Abrindo o Futuro):
Este é o pulo do gato. A psicanálise não é só arqueologia do passado; ela é a abertura para o futuro. Quando o sujeito se liberta das repetições e dos comandos do Inconsciente, ele se depara com um espaço em branco.
Cuidar dessas cartas é sustentar o seu espaço de fala para que você possa inventar uma nova forma de viver, mais livre e menos neurótica. O psicanalista garante que, naquele consultório, existe um tempo e um lugar para você assumir a bronca e começar a escrever o seu próximo capítulo, sem o peso do passado no ombro.
O carteiro, no fim, não te dá o mapa do tesouro. Ele só te ajuda a organizar suas correspondências para que você possa, finalmente, tomar as rédeas e decidir o que, de fato, vale a pena ser escrito na sua vida.
Por Karyna Boano
Psicóloga e Psicanalista