Burnout: Quando o Trabalho Adoece

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A palavra “burnout” já não é mais estranha ao nosso vocabulário cotidiano. Cada vez mais presente nas rodas de conversa, nos consultórios e até nas redes sociais, o termo representa algo mais profundo do que simplesmente cansaço: trata-se de um colapso emocional e físico decorrente de uma sobrecarga prolongada e pouco recompensadora no ambiente de trabalho.

Mas o que a psicanálise pode nos dizer sobre esse adoecimento silencioso?

Burnout: além do estresse

O burnout, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), é um fenômeno relacionado ao contexto ocupacional, caracterizado por exaustão emocional, despersonalização e baixa realização profissional (Maslach & Jackson, 1981). Do ponto de vista clínico, ele se apresenta com sintomas como fadiga persistente, irritabilidade, desânimo e distanciamento afetivo em relação ao trabalho.

Mas para a psicanálise, o burnout não é apenas um excesso de trabalho — é, antes de tudo, um sintoma que fala de um sofrimento psíquico mais profundo, muitas vezes enraizado na relação do sujeito com o desejo, o ideal do Eu e as exigências do Outro.

O sujeito e a alienação ao trabalho

Sigmund Freud, em seu texto “Mal-estar na civilização” (1930), já apontava que o trabalho é uma das formas pelas quais o sujeito busca a realização e a sublimação dos impulsos. No entanto, quando o trabalho deixa de ser fonte de reconhecimento simbólico, ele pode se tornar um terreno fértil para o sofrimento psíquico.

Jacques Lacan, por sua vez, nos ajuda a pensar o burnout como uma forma de alienação subjetiva. O sujeito, ao tentar corresponder às expectativas do Outro — seja esse Outro a empresa, a cultura da produtividade ou o próprio ideal de Eu —, entra em um circuito de gozo que o leva à exaustão. O gozo aqui não é o prazer, mas o excesso: um “mais além do princípio do prazer”, como diria Freud (1920).

O esvaziamento simbólico do sujeito

Muitos pacientes que chegam ao consultório com sintomas de burnout relatam uma sensação de vazio, de perda de sentido e de um viver automatizado. Isso pode ser compreendido como uma ruptura no laço simbólico — uma falha no reconhecimento e no lugar subjetivo que o sujeito ocupa em sua vida e nas relações. A falta de reconhecimento, apontada como uma das causas do burnout, é também, na psicanálise, um fator que fragiliza a constituição do Eu.

Como afirma Dejours (2007), o sofrimento no trabalho está intimamente ligado ao lugar que o sujeito ocupa no laço social. Quando esse lugar é marcado pela desvalorização, pela exigência desmedida ou pela falta de sentido, o sujeito entra em colapso. Não é à toa que muitos descrevem o burnout como uma sensação de “morrer por dentro”.

O lugar da escuta e da reconstrução subjetiva

A psicoterapia, especialmente com abordagem psicanalítica, se mostra potente nesse cenário, pois oferece um espaço onde o sujeito pode ressignificar sua relação com o trabalho, com os ideais internalizados e com o próprio desejo. A escuta atenta e sem julgamento permite que o paciente se aproxime de si mesmo e reconheça os discursos que o atravessam e que, muitas vezes, o adoecem.

O processo analítico não propõe soluções imediatas, mas permite ao sujeito elaborar sua angústia, nomear seus conflitos e, sobretudo, sustentar um desejo que seja verdadeiramente seu — e não do Outro.

O burnout, portanto, não é apenas uma “doença do trabalho”, mas uma expressão do mal-estar na cultura contemporânea, marcada pela aceleração, pela competitividade e pela lógica do desempenho. A psicanálise nos convida a olhar para esse sofrimento para além dos sintomas, buscando compreender o que está em jogo na economia psíquica do sujeito. Escutar esse mal-estar é, antes de tudo, um ato ético.

por Karyna Boano